Na segunda metade de agosto de 2026, tive a satisfação e o privilégio de conhecer o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Realizamos a travessia Leste x Oeste, partindo de Atins e chegando em Santo Amaro do Maranhão. Realizamos o percurso em 5 dias, com 4 pernoites nos tradicionais redários da região. Nesse período, atravessamos 20 Km de praia, desde Atins até a Duna da Bandeirinha, onde entramos nos Lençóis. Depois, percorremos 40 Km pelas suas dunas e lagoas de beleza singular, passando pelos oásis da Baixa Grande e Queimada dos Britos, até o povoado de Betânia, na borda sudoeste do parque. O trecho final, de Betânia até Santo Amaro, foi vencido remando caiaques por 15 Km nos rios Grande e Alegre.
Foto: Ramon Diacovo
Os Lençóis Maranhenses constituem uma paisagem e um ecossistema único no planeta, e tem atraído milhares de turistas anualmente, de dentro, e fora do país. De fato, ficamos encantados com os cenários que testemunhamos. Porém, mais do que a contemplação de belos visuais, a caminhada por aquelas dunas intermináveis foi uma oportunidade de praticar nosso esporte em um terreno totalmente diferente da nossa zona de conforto. O planejamento e a execução dessa excursão teve aquele sabor especial do desconhecido, do inesperado. Retorno dos Lençóis com a sensação de realização e gratidão. E com o sentimento de que, mais cedo ou mais tarde, a saudade daqueles ventos correndo na imensidão do deserto, das cores das lagoas contrastando com o branco das areias, da sensação de deslizar pelas encostas das dunas, me levará a percorrer novamente aqueles caminhos.
Relato
15/08) São Luís → Barreirinhas → Atins
Desembarcamos no aeroporto de São Luís no início da madrugada, e tomamos um Uber para o Hotel Belaris Comfort no bairro do Calhau. O hotel é bem novo, ofereceu um bom atendimento e quartos confortáveis. Dormimos por algumas horas e levantamos para o café da manhã. Às 9h saímos com Gilson, motorista que contratamos previamente, com destino à Barreirinhas. Gilson foi indicação de amigos que fizeram a travessia previamente. Ele nos prestou ótimo serviço. Gilson possui um Toyota Prius, que atendeu muito bem ao nosso grupo de 4 pessoas com mochilas de 30 a 40 litros. Antes de pegarmos a estrada, passamos rapidamente numa loja de pesca para comprar um cartucho de gás que levamos para uma eventual refeição de emergência durante a travessia.
Chegamos em Barreirinhas às 13:40, com temperatura de 31°C. Viagem tranquila, com apenas uma breve parada para esticar as pernas e uso do banheiro. Gilson nos deixou no Porto Chico Pedro, de onde sairia a voadeira que havíamos reservado previamente com a Atins Beach Adventure. A embarcação faz a descida do Rio Preguiças, até o povoado de Atins, com algumas paradas opcionais em pontos de interesse turístico. Havíamos combinado a partida para às 15:30. Nesse intervalo, almoçamos um peixe grelhado no restaurante "O Capote", bem em frente ao porto. O "porto", na verdade, é bem simples, uma praia praticamente sem qualquer estrutura especial. Antes do horário combinado, o piloto Maquias já chegava ao local. Às 15:25, já estávamos embarcados, partindo para a Atins.
O Rio Preguiças é muito bonito, largo, com margens ricas em vegetação preservada, incluindo espécies do cerrado, manguezais e belas palmeiras. Não tínhamos pressa para chegar em Atins, então optamos por fazer as paradas turísticas de praxe. Em torno das 16:10, chegamos em Vassouras. No local há um grande restaurante, e é possível acessar às Dunas de Vassouras, que abriga lagoas semelhantes às dos Lençóis. Parte do grupo já inaugurou os mergulhos em lagoas ali mesmo. Nos despedimos dos macacos-prego que visitam a vegetação próxima à praia, e seguimos viagem, ladeando dunas e cabanas rústicas de pescadores. No horizonte podia ser avistado o grande número de aerogeradores do Parque Eólico do Maranhão.
Nossa próxima parada foi na vila de Mandacaru. Às 17h descíamos no cais. Percorremos as vielas do povoado em direção ao famoso Farol Preguiças. Àquela hora, os estabelecimentos já fechavam e poucos visitantes circulavam por ali. Em cinco minutos estávamos na porta de acesso ao farol. Os militares gentilmente permitiram nossa subida na torre, cujo horário de visitação, acabara de se encerrar. Subimos os 35 metros de escadas que conduzem até o mirante, de onde tivemos uma bela visão panorâmica da região, engrandecida pelo sol de final de tarde.
Foto: Catia Valdman
Prosseguimos no passeio de barco, fazendo nossa terceira parada às 17:35, na Praia do Caburé. Esse foi o ponto menos interessante. Caminhamos pela faixa de areia de cerca de 300 metros de largura, que separa a margem do Rio Preguiça do Oceano Atlântico. Passamos por um restaurante e algumas ruínas de antigas construções invadidas pela areia. O destaque da parada foi o Sol, que começava a baixar no horizonte enquanto embarcávamos para seguir viagem. Percorremos o trecho final do Rio Preguiças curtindo o pôr do sol, até chegarmos na praia de Atins, às 18h.
Permanecemos embarcados ali na beira da praia, curtindo o final da tarde, enquanto esperávamos o translado para a nossa pousada em Atins. Algo um tanto quanto luxuoso e controverso, para um grupo de caminhantes que iria atravessar os Lençóis à pé no dia seguinte. De toda forma, o serviço de translado estava incluído no pacote do passeio. Não quisemos perder a mordomia, até porque, iríamos nos hospedar um pouco mais distante do "centro" da pequena Atins. Demoramos para fazer nossa reserva, e acabamos escolhendo a Pousada Bouganvile. Ótima pousada, porém localizada a cerca de 30 minutos de caminhada da praia, e da maiorias dos restaurantes do vilarejo.
Foto: Catia Valdman
Fomos deixados na Bouganvile às 18:25, onde fomos bem recebidos pelo Sr. Jeberson. Tomamos banho e saímos para jantar, dessa vez, com pés nas areias de Atins. Cruzamos uma longa ponte de madeira sobre um manguezal, e ao final da ponte, um pequeno trecho por dentro da água rasa. Era um sábado e Atins estava movimentada. O vilarejo é simpático. As vielas de areia e construções simples (certamente pertencentes aos moradores mais antigos) contrastam com os restaurantes e "lodges" luxuosos, repletos de turistas (muitos estrangeiros).
Foto: Letícia Vimeney
Acabamos na Pizzaria dos Santos. Local simples, mas nos serviu uma ótima pizza. Aguardando a chegada do nosso pedido, observávamos os jegues transitando pela rua. Um deles vagarosamente se aproximou das mesas e, como um cão vira-lata pedindo comida, quase encostava o focinho na mesa de um casal. Às 21:45 começamos a caminhar de volta para pousada. A maré havia baixado, e agora conseguimos acessar a ponte sem pisar na água. Com satisfação, ligamos o ar-condicionado do nosso quarto para curtir a última noite no conforto de uma cama. A proximidade da "civilização", porém, tem seu preço. No meio da madrugada fomos perturbados pelo som em alto volume de alguma festa que acontecia nas imediações.
16/08) Atins → Canto de Atins
Decidimos caminhar para o Canto de Atins apenas no meio da tarde. Com pouco menos de 7 Km de percurso, seria o trecho mais curto da travessia. Acordamos sem pressa e, às 8:00, curtíamos o café da manhã na pousada. Admiramos as nuvens esparsas no céu, inclusive, algumas em cinza mais escuro. Não passou de uma instabilidade matinal. O grupo permaneceu descansando o resto da manhã, com exceção de uma integrante mais animada, que preferiu passear por Atins, e até fazer uma aula de wind surf. Combinamos de nos encontrar para o almoço na beira da praia (na verdade, bem na foz do Rio Preguiça), no restaurante Cabana do Peixe.
Ao meio dia, faziam 32°C na sombra da pousada. O céu já estava totalmente aberto e uma brisa suave tentava amenizar o calor. Era hora de começar a deixar para trás o conforto. Encaramos 30 minutos sofridos de caminhada, tentando nos abrigar nas poucas sombras que cruzávamos pelo caminho. Naquele horário, poucos transitavam pelas vielas de areia do povoado. Uma moradora local tentava caminhar próxima às escassas gramíneas na margem da rua, enquanto se abrigava sob o seu guarda-chuva.
Foto: Catia Valdman
O restaurante era grande mas estava bem cheio e movimentado. A localização privilegiada certamente atraía muitos clientes. Nos apressamos para garantir uma mesa e fazer nosso pedido. Em cerca de 40 minutos trouxeram nosso peixe. Estava delicioso. Ficamos por ali batendo papo e apreciando a praia, enquanto aguardávamos o sol baixar. Às 15:20, deixamos o restaurante e partimos em busca de um mercadinho, para comprar a água que iríamos consumir na caminhada. Teria sido melhor já termos resolvido isso antes de chegarmos ao restaurante. Assim, poderíamos ter seguido dali mesmo, pela beira da praia.
Andamos cerca de 600 metros para dentro do povoado, garantimos nossa água e, às 15:35 partíamos para o Canto de Atins. A caminhada pelas vielas de areia fofa era ineficiente. Aos poucos, fomos nos dirigindo de volta para a beira da praia, onde a areia era mais compactada e corria o vento fresco. Seguimos em direção à um descampado, cruzamos um pequena vegetação que parecia ser um ponto razoável para acessar a praia e, inesperadamente, nos deparamos com uma placa bem estruturada, indicando o início da Travessia dos Lençóis. Quem a via tinha a impressão de que o restante do trajeto seria ricamente sinalizado. Mera ilusão. Não vimos nada parecido até o último dia de percurso.
Seguimos o resto da tarde caminhando para o oeste, gradualmente deixando para trás a foz do Rio Preguiças. Logo após nos desvencilharmos de um trecho de vegetação de manguezal, o terreno ficou fácil de ser vencido. A orientação também não era difícil, já que as gramíneas e o chão arenoso é marcado pelos quadriciclos e pedestres que passam regularmente por ali. Tivemos a sorte de não ser importunados por nenhum veículo, e pudemos observar ao longe grupos de turistas passeando a cavalo pelo topo das dunas ao sul. Às 17:25, chegamos no Restaurante e Redário do Sr. Antônio. Éramos os únicos hóspedes para aquela noite. Nos instalamos, batemos um papo breve, mas agradável, com Elynajaira, filha do Sr. Antônio. Não tivemos o privilégio de conhecer esse antigo morador, que havia saído para pescar.
Saímos para o descampado na frente da propriedade, para curtir o pôr do sol. Vivendo nas cidades ou nas montanhas, não se tem a oportunidade de ver um final de tarde com o horizonte livre de obstáculos. Apesar de ainda não estarmos nas famosas dunas, nos maravilhamos com as cores do final de tarde naquele terreno tão amplo. Assim que o sol se despediu, ganharam destaque a Lua crescente e Vênus. De repente, nos surpreendemos com outras luzes: Como um exame de insetos, ou naves extraterrestres, dezenas de pontos luminosos surgiam nas dunas ao sudoeste. Eram os faróis das pickups que certamente haviam levado turistas para ver o pôr do sol, e agora retornavam simultaneamente para Atins.
Com o pôr do sol, a temperatura havia caído para 26°C. Uma brisa agradável corria. Com os cordeletes que trouxemos, montamos um varal improvisado junto das redes, para secar as roupas que lavamos. Vimos um rato andando sobre as vigas do telhado. Por prevenção, separamos nossos alimentos e mantivemos sob nossa supervisão constante para evitar acidentes logo na primeira noite. Nosso jantar seria servido às 19:30. Pedimos camarões empanados e grelhados. Ambos estavam uma delícia. Destaque para esses últimos, que são a especialidade da casa. Camarões grandes, abertos longitudinalmente e grelhados ainda com casca. O feijão de corda também foi muito elogiado. Compramos 3 litros de água por pessoa para consumo no dia seguinte. Encerramos nossa conta e, com as mochilas já prontas para o dia seguinte, nos recolhemos para o primeiro pernoite em redes da nossa travessia.
17/08) Canto de Atins → Baixa Grande
Tínhamos à frente o dia mais desafiador da travessia: um total de 25 Km. Percorreríamos toda a praia desde o Canto de Atins até alcançarmos a Duna da Bandeirinha, ponto que marca a entrada nos Lençóis propriamente. Dali, caminharíamos até o oásis da Baixa Grande. Para evitar a parte mais quente do dia, combinamos nosso café da manhã para às 2:30, e início da caminhada às 3:00. Nossa primeira noite em redário foi um fracasso. Praticamente não dormimos. Não exatamente pelas redes, que, a propósito, eram grandes e novas. Na verdade, as queixas foram com os mosquitos, alguns com o calor, outros com o vento, e até com o frio! Mas no fundo, certamente, a apreensão com a caminhada deve ter sido o maior obstáculo para relaxarmos.
Às 3:08 partíamos para a Baixa Grande. A Lua já havia se posto há horas. Com nossas lanternas de cabeça, tomamos uma viela de areia ao lado do restaurante, que foi nos conduzindo em direção à praia. Apesar do céu parcialmente encoberto, admirávamos as milhares de estrelas visíveis naquele breu. De tempos em tempos, apagávamos as lanternas para apreciar ainda melhor o céu. O terreno era tão livre que nos arriscávamos até a caminhar na total escuridão, apenas pela sensação de nos deslocar apenas sob o domo de estrelas.
Às 4:00, alcançamos uma grande placa reflexiva do ICMBio com o nome do Parque. A partir desse ponto, a "estrada" de areia compactada que seguíamos foi se tornando menos evidente. Tentamos seguir em direção fixa, paralela a linha da costa. Andamos por quilômetros na escuridão, apenas mantendo a direção constante na bússola. Era interessante notar as ondulações impressas pelo vento na areia, mantidas também em direção constante. A medida que avançávamos, nos deparávamos eventualmente com terreno mais instável e alagadiço. Nesses pontos, fomos desviando gradualmente para dentro do continente (e em direção às dunas), buscando solo que mantivesse a progressão mais fácil. Observando as imagens de satélite posteriormente, notamos que esses pontos são espécies de canais por onde ocorre o escoamento de algumas lagoas para o mar.
Pouco depois das 5:15, fizemos mais um desvio em direção às dunas. Começamos então a avançar por uma faixa de areia também usada pelas pickups que transportam os turistas até a Bandeirinha. Às 5:30, o sol começava a nos presentar com um show de cores no horizonte. Ao mesmo tempo, começamos a identificar o brilho de faróis de pickups vindo de Atins. Vários passaram por nós, e depois, os assistimos retornando, enquanto continuávamos caminhando com a Duna da Bandeirinha nos provocando no horizonte à nossa frente. Por mais que andássemos, ela parecia nunca chegar. Seguimos determinados, tomando vez ou outra, rasantes de gaivotas que, aborrecidas com nossa presença, provavelmente defendiam seus ninhos na areia.
Foi apenas às 8:05, com cinco horas de caminhada, incluindo pouquíssimas paradas para descanso, que finalmente alcançamos a famosa Bandeirinha. Fizemos questão de subir o morrote de areia que nos separava do mastro com os resquícios de uma pequena Bandeira Nacional, destruída pelos ventos incessantes. Fizemos nossa foto ao lado do clássico marco, ao mesmo tempo em que mais uma pickup descarregava um pequeno grupo de caminhantes. Eles estavam frescos para iniciar a travessia, enquanto nós já sentíamos o peso do intenso desgaste físico, e os primeiros sinais das bolhas nos pés. Até o oásis, ainda tínhamos mais 6 Km em terreno desconhecido.
Foi com um misto de cansaço, apreensão e encantamento que começamos a dar os primeiros passos nos Lençóis. Logo no vimos no topo de uma duna. Caminhávamos por sua crista: À nossa esquerda, uma suave rampa de areia. À nossa direita, um desfiladeiro de, talvez, 10 ou 15 metros de altura. Lá embaixo, o terreno úmido, resquício de uma grande lagoa que secara recentemente. De imediato começamos a nos deparar com as perguntas que nos acompanhariam pelos próximos dias. Vamos contornar a lagoa? Vamos atravessar? Vamos descer pelo desfiladeiro de areia ou seguir a curva suave da duna até a margem da lagoa? Nos dias seguintes, nos encontraríamos no topo de dunas ainda mais altas e iríamos ganhando familiaridade com a descida dos paredões de areia e a travessia dos alagados.
Ainda nessa manhã fizemos nossas primeiras descidas de dunas pelo seu lado íngreme (e vimos que é muito mais fácil e divertido do que parece). Demos também os primeiros mergulhos nas lagoas (apenas dois, e breves, já que o dia vinha sendo longo). E cruzamos algumas lagoas cheias, mas cuja água não passara da altura dos joelhos. Admiramos os vento despejando cascatas de areia nas cristas das dunas, e até pequenos redemoinhos de areia, se deslocando como ventiladores, contra as paredes quase verticais no entorno das lagoas. Às 10:15 avistamos a vegetação do oásis da Baixa Grande no horizonte. No alto de algumas dunas, "ilhas" de vegetação isoladas onde algumas cabras de protegiam do sol. Às 10:30, já avistávamos o telhado do redário da Dona Dete entre as árvores, além de dois imponentes coqueiros que marcam a entrada no local.
Às 10:45, com alegria e alívio, encerrávamos nosso segundo dia de caminhada, em frente ao portão de entrada do redário. Foram quase 8 horas marcadas por superação e paisagens inesquecíveis. Fomos os primeiros a chegar no local. Nos instalamos e, imediatamente, a maioria do grupo apagou no chão e nos bancos, enquanto aguardávamos o almoço. Dona Dete, que comandava a cozinha, se apresentou brevemente. Comemos bem e conversamos um pouco com Gil, filho de Dona Dete e ex guia local. Nos contava que hoje em dia, é raro ver quem chega andando de Atins. "Isso é coisa de raiz. Só faz isso quem vem sem guia. Hoje quem vem com guia nunca faz esse trecho. Começa na Bandeirinha." Honrados, mas exaustos, fomos descansar em nossas redes após o almoço. Se consegui dormir, foram apenas alguns cochilos, interrompidos pelos potentes balidos das cabras no quintal, e pelo calor de 32°C na sombra.
Ao final da tarde, deixamos o redário para apreciar o pôr do sol. Caminhamos uns 200 metros até a parte mais alta de uma duna próxima, para ter uma visão melhor. Foi talvez o pôr do sol mais bonito da viagem. O céu estava bem limpo no oeste e pudemos observar todo o espetáculo sem interrupções. Nas partes mais altas das dunas no entorno, observávamos pontinhos escuros: Grupos de pessoas também acompanhando o pôr do sol. Bem baixo no horizonte, o sol se tornou um disco roxo lindíssimo, antes de desaparecer. Cores e emoções impossíveis de se capturar nas melhores fotos. Antes de dormir, voltaríamos à frente do redário para observar as estrelas e meteoros cruzando o céu dos Lençóis.
Ao longo do dia, pouco a pouco chegaram outros hóspedes. Com o cair da noite, grande número de visitantes chegou, incluindo os grupos que vimos apreciando o pôr do sol no topo das dunas. No jantar, o refeitório estava lotado. Nos sentíamos ilhados no meio de enormes mesas de estrangeiros. Nos divertimos tentando identificar brasileiros no meio da multidão. Os guias locais e funcionários do redário tentavam atender o público da forma que podiam, uns com maior, outros com menor desenvoltura nos idiomas. Claramente os franceses eram maioria. Um grande galpão de redes parecia ter sido ocupado só por eles. Dormimos no alojamento vizinho, dividindo espaço com um numeroso grupo de italianos. As redes não eram tão boas quanto do Sr. Antônio. Mas naquela noite dormi o melhor sono de toda a viagem. Certamente, embalado pelo cansaço do longo dia de caminhada.
18/08) Baixa Grande → Queimada dos Britos
Teríamos um dia relativamente curto: apenas 12 Km. Marcamos nosso café da manhã para 4:45. Com um reduzido número de funcionários para atender toda aquela multidão, não conseguiram nos servir no horário. Partimos para a caminhada às 5:50. Estávamos mais descansados do que quando iniciamos a caminhada nos Lençóis, na Duna da Bandeirinha. Podíamos agora curtir aquele ambiente tão diferente com mais tranquilidade. O primeiro grande atrativo do dia foi o nascer do Sol nas dunas, enquanto deixávamos para trás a Baixa Grande. Um espetáculo de cores, emoldurado pelo mar de dunas.
Durante a caminhada, encontramos novamente um grande número de lagoas quase secas, mas também um bom número de lagoas ainda com água. Ao longo do dia, tivemos um pouco mais paradas para banho. De forma geral, achamos o visual das dunas mais interessante do que no dia anterior. A Queimada dos Britos é enorme, e bem antes de começarmos a aproximação para a entrada no oásis, já avistamos a sua vegetação no horizonte. Seguimos ao norte da Queimada por 3 a 4 quilômetros, talvez um dos trechos mais bonitos do dia. Foi por ali que avistamos as lagoas com colorações mais intensas de verde e azul turquesa.
Faltando cerca de 1 Km para a entrada do Oásis, tivemos a satisfação de conhecer Sr. Moacir, marido de Dona Dete. O senhor é guia veterano dos Lençóis e, apontando o marca-passo no peito, nos contava que hoje não pode mais guiar por aquelas areias. Por alguma razão, naquele dia estava conduzindo um casal de turistas para a Queimada dos Britos. Impaciente com a lentidão dos clientes, ia se lamuriando dunas acima. O humor melhorou no banho na última lagoa, antes do trecho final para entrada na Queimada.
A chegada na Queimada dos Britos é bem bonita. A mata verde densa surge em meio às areias, e mesclada à mata, expressivas regiões alagadas. Tão logo adentramos o oásis, começamos a nos deparar com animais de criação e cajueiros. Com os ventos bloqueados pela vegetação, a sensação térmica sobe imediatamente, e as areias se tornam difíceis de serem toleradas sem calçados. Cruzamos duas pontes simples de madeira e continuamos atravessando o povoado pela viela de areia. Passamos por várias moradias e até por uma minúscula escola. Foram pouco mais de 2 Km andando dentro da Queimada, até alcançamos o destino daquele dia: o Redário da Maria de Biziquinho, uma das últimas opções de parada por ali.
Eram 11:40 quando chegamos ao redário. Tivemos uma boa impressão do local, amplo, arejado, bem organizado e ficamos satisfeitos com nossa escolha. Já haviam alguns grupos pequenos, mas definitivamente menos tumultuado do que na Dona Dete. Um córrego, ou braço de uma lagoa passava no fundo da propriedade, e já estávamos planejando um banho por lá. Uma funcionária nos dissuadiu, dando a entender que não era limpo. Preferimos no contentar com o banho nos chuveiros. Fizemos mais um vez um ótimo almoço com camarões grelhados "à moda do Sr. Antônio" e passamos o resto da tarde descansando e batendo papo. No meio da tarde, mais uma vez os termômetros mediam 32°C na sombra.
Foto: Catia Valdman
Ao final da tarde, andamos por pouco mais de um 1 Km, até o topo da primeira duna após o final do oásis. Ali, o visual do entorno era ainda mais fascinante do que na tarde anterior. Porém, havia um pouco de nebulosidade ao oeste, que acabou rendendo o segundo lugar para este pôr do sol. Jantamos um ótimo peixe e, em torno das 21:15, estávamos em nossas redes para dormir. A temperatura agora era de 28°C. O redário já havia enchido, mas nada superaria a aglomeração na Dona Dete. Tive mais uma noite difícil, lutando contra os mosquitos e contra o calor. Ao contrário do Sr. Antônio, onde não havia paredes do lado das redes, nas duas últimas noites os alojamentos contavam com uma meia parede que bloqueava a circulação do vento. Invejei uma guia local, que montou sua própria rede com mosqueteiro fora do alojamento, debaixo das árvores.
Dia 19/08) Queimada dos Britos → Betânia
Às 5:15 partíamos para mais um dia nas dunas. Hoje caminharíamos 16,5 Km até o povoado de Betânia, na borda sudoeste dos Lençóis. Às margens da viela de areia cruzamos com alguns bacuraus encerrando seu turno. Os olhos das aves brilhavam à distância, iluminados pelas nossas lanternas de cabeça. Deixamos para trás a Queimada, e as dunas onde assistimos o último pôr do sol. Não demorou para o horizonte começar a se iluminar num espetáculo de cores. Foi uma das manhãs mais bonitas. Às 6:00 o Sol se erguia das areias, atrás de nós. Alguns quilômetros à nossa frente, identificamos um numeroso grupo de caminhantes parados numa duna mais alta. Certamente haviam antecipado sua saída para apreciar o nascer do sol lá do alto.
O dia clareou, e estava mais nublado do que os anteriores. Não nos queixamos. Na verdade, as nuvens estavam dando um toque especial à paisagem. Mais do que isso, após dias de sol intenso refletindo nas areias, a luz amenizada pelas nuvens nos permitia apreciar contrastes mais sutis nas cores e formas das dunas. Com o passar dos dias, tivemos a sensação de que as paisagens só melhoravam. Nesse trecho, tivemos a impressão de que as dunas eram maiores, mas simultaneamente, com contornos mais suaves e sinuosos, se perdendo à distância. Ao longo do dia, encontraríamos as maiores e mais profundas lagoas da travessia.
Subimos e descemos enormes dunas com encostas suaves, caminhamos pelas margens de lagoas gigantes, cheias d'água, e atravessamos o leito quase seco, de tantas outras. Às 9:40 alcançamos a Lagoa do Junco, e logo depois a do Murici, onde foi irresistível a parada para banho. Essas belas e imponentes lagoas são das poucas que aparecem representadas nos mapas. O ponto negativo do dia foi o intenso fluxo de pessoas, ou pior, de veículos, nesse trecho. Em particular nessa seção final, onde o acesso é facilitado pela proximidade de Betânia e Santo Amaro.
Às 11:15 encontramos a "segunda bandeira" da travessia. No topo de uma duna, uma outra Bandeira Nacional, maior e melhor conservada, marca o ponto de travessia da Lagoa de Betânia. Deslizamos pela encosta íngreme em direção à voadeira que aguardava para fazer a travessia dos turistas. Em 10 minutos estávamos na prainha de acesso ao povoado de Betânia. Tomamos uma trilha de areia quente, daquelas que não só exige calçados, mas também chega a queimar o peito do pé quando é levantada. Atravessamos um córrego com água nos joelhos e, às 11:45, chegávamos no Rancho Carimbó, nosso ponto de pernoite.
O espaço era bastante agradável e estava bem movimentado quando chegamos. Além de receber os viajantes para pernoite, recebe também visitantes apenas para o almoço. É amplo, arborizado, situado às margens de uma lagoa. Existem redes não só nos alojamentos cobertos de palha, mas espalhadas por todo o terreno, sob as árvores e até bem à margem da lagoa. Após o almoço, assistimos o lugar ir se esvaziando, até restarem apenas os grupos que faziam a travessia. Passamos o resto da tarde relaxando e curtindo a lagoa. Foi engraçado observar a movimentação das pessoas dentro daquele redário, que às vezes parecia uma clínica ortopédica. Com o desgaste físico acumulado até aquele ponto, muitos mancavam, seja pelas dores musculares, seja pela bolhas nos pés.
Durante a tarde houve falta de luz, e consequentemente, falta de água nas caixas d'água. Vimos os funcionários numa força tarefa para manter a operação, carregando baldes de água recolhidos da lagoa. Felizmente, após algumas horas a luz voltou, e tudo se normalizou. Assim como nos dias anteriores, a parte da tarde sempre foi a mais sofrida. Temperaturas em torno dos 32°C e, longe do vento da dunas, um mormaço desagradável se instaurava.
Jogamos cartas no início da noite, e no jantar, repetimos o delicioso camarão ao leite de coco, que experimentamos no almoço. Quando chegou a hora de dormir, preferi me mudar para uma das redes sob as árvores. Que alívio me livrar das paredes do alojamento! O vento corria muito melhor. Adormeci observando os morcegos dando rasantes sobre a rede, enquanto voavam de uma árvore para outra. Não foi uma noite perfeita, pois os mosquitos e o calor insistiam em incomodar, mas com certeza descansei muito melhor do que na noite anterior.
Dia 20/08) Betânia → Santo Amaro → São Luís
Havíamos ouvido relatos de que a caminhada final de Betânia até Santo Amaro seria a menos interessante do roteiro. Muitos trechos de areia fofa, além do fluxo constante de veículos. Decidimos seguir as dicas de outros amigos, que nos recomendaram finalizar a travessia de um jeito diferente: Remando um caiaque pelos Rio Grande e Alegre. Como um grande fã de caminhadas, confesso que eu teria tido uma satisfação especial em ter percorrido, à pé, toda a extensão de areia do Atins até Santo Amaro. Mas também assumo que a inclusão dessa remada no roteiro deu um toque de diversão muito bem-vindo, até porque, já havíamos andado nada menos do que 60 Km de areia até ali.
Às 6:00 estávamos tomando nosso café da manhã no Rancho Carimbó. Com um pouco de atraso, às 6:55 deixamos o local, seguindo outros grupos que também iriam remar. Fiquei satisfeito de cumprimentar brevemente o veterano Carimbó, dono do redário, que conduzira os grupos até o ponto de embarque. Nossa saída acabou acontecendo cerca de 1,3 Km a jusante do ponto onde partiram os amigos que nos recomendaram a remada. Perdemos com isso, um trecho interessante do percurso que ladeia as dunas. Parece que houve algum problema com a logística do transporte dos caiaques.
Começamos a descida do rio às 7:30. Nosso guia na remada foi o Pedro Lucas (Peu). Águas calmas com temperatura agradável, brisa suave a favor. Uma verdadeira diversão e relaxamento. Rio estreito na maior parte do percurso. Precisávamos ter cuidado apenas para não encalhar em bancos de areia, ou bater contra alguns galhos secos que às vezes surgiam, geralmente próximos às margens. Fizemos duas paradas de 15 a 20 minutos para banho e lanche. A primeira às 8:10 e a outra às 9:20. Depois da segunda parada, a brincadeira começou a exigir um esforço físico maior. O vento passou a soprar contra, e precisamos de mais comprometimento nas remadas para nos deslocar. Nesse trecho final começam a aparecer construções de alvenaria nas margens (algumas bem feias inclusive).
Foto: Catia Valdman
Chegando em Santo Amaro, passamos por baixo de uma ponte grande de concreto, e 800 metros à frente, finalizamos a remada na margem direita do Rio Alegre, ao lado do Restaurante e Hotel Sol de Amaro. Eram 10:55, remamos 15 Km. Felizes com o encerramento do percurso, não só o percurso nos caiaques, mas a linda e bem sucedida travessia dos Lençóis, tomamos um banho de rio e fomos almoçar. Nossas mochilas já haviam sido deixadas na recepção do hotel pela empresa que oferece os passeios de caiaque. Além das tradicionais redes, o restaurante oferece também chuveiros para os visitantes. Aproveitamos para tomar um banho e relaxar um pouco após o almoço, enquanto aguardávamos a chegada do nosso translado para São Luís.
Às 14:00 Gilson nos buscava na porta do hotel. Às 16:00, fazíamos uma parada para um café no restaurante Fazendinha. Pegamos trânsito intenso na chegada à São Luís. Chegamos de volta ao hotel Belaris às 18:35. Tomamos banho e saímos novamente, para uma breve visita ao Centro Histórico da cidade. No retorno ao bairro do Calhau, fizemos um jantar de despedida excelente no restaurante Cabana do Sol, e voltamos ao hotel. Apenas para um cochilo de uma hora, antes de partirmos para o aeroporto. No início da madrugada do dia 21, decolávamos de volta para nossas cidades de origem.
Dicas
Sobre as reservas
Recomendo que sejam feitas reservas dos pernoites e refeições em todos os redários, com antecedência. Quanto maior o grupo, mais indicada é a reserva antecipada. Atualmente, todos os redários possuem acesso à Internet e respondem sem muita demora ao contato através do Whatsapp. A estratégia que utilizamos foi a seguinte: Com pouco menos de 1 mês de antecedência, realizamos um primeiro contato solicitando a reserva. Nesse momento, senti uma certa despreocupação, ou indiferença, com nosso pedido. Talvez porque muitos façam contato e acabem não concretizando a visita. Às vésperas da viagem, procuramos novamente pelos redários, reforçando que estávamos prestes a começar a travessia. Desta vez, o tom da conversa foi diferente. Fizeram questão de, não só confirmar a quantidade de pessoas, mas em alguns casos, até mesmo combinar qual seria o prato que consumiríamos nas refeições.
De uma forma geral, sentimos que o pessoal dos redários é muito solícito e tenta ajudar os viajantes da melhor forma possível. Porém, a procura é enorme e existe uma certa falta de controle no processo. Em um dos redários fizemos aquele primeiro contato informando que queríamos pernoitar e fazer as refeições. Ao chegar no local, disseram que não tínhamos feito reserva para as refeições por que "não pedimos o cardápio". Então, uma dica pode ser perguntar antecipadamente se é necessário "escolher o cardápio". Imagino que esse tenha sido um ponto fora da curva, mas fica o alerta de que a comunicação às vezes é um ponto fraco e que, às vezes, é bom esclarecer o óbvio.
Fora as reservas dentro dos Lençóis, são altamente recomendadas as reservas com antecedência de hospedagens e translados (incluindo barcos) em/de/para Atins, Barreirinhas e Santo Amaro. A procura por esses destinos está em alta. Atins é um povoado pequeno, e um ponto muito interessante para se curtir com mais calma. As opções de hospedagem com melhor custo benefício se esgotam rapidamente.
Sobre os redários
Com o aumento da procura pela região ao longo dos anos, os antigos moradores se adaptaram para lidar com um volume expressivo de visitantes. Hoje, os redários contam com mais de um alojamento, onde são dispostas dezenas de redes. Além da rede, um lençol é oferecido para cada visitante. Os alojamentos geralmente são cercados por uma meia parede, e cobertos por palha, ou telhas de fibrocimento. Os banheiros são simples, com vasos sanitários convencionais e chuveiro de água fria. O valor cobrado pela maioria dos redários é de R$ 240 por pessoa, incluindo o pernoite, almoço, jantar e café da manhã.
As refeições são servidas em amplos refeitórios. O almoço costuma ser servido em torno do meio dia, e o jantar às 19h. O horário do café da manhã pode ser escolhido por cada grupo. No café, costuma ser servida tapioca, frutas, um bolo simples, ovo mexido, suco e café. Não há manteiga nem leite. Como substituição, pode ser encontrada margarina e leite em pó. Para o almoço e jantar, cada grupo pode escolher entre alguma proteína, que costuma ser frango, peixe ou camarão (todos muito saborosos). E o acompanhamento será invariavelmente arroz, feijão de corda, macarrão espaguete com uma leve coloração de molho de tomate, farofa e uma salada simples, geralmente de tomate e pepino. Para beber, podem ser comprados à parte refrigerante, cerveja ou água mineral.
Nos hospedamos nos redários do Sr. Antônio (Canto de Atins), Dona Dete (Baixa Grande), Maria de Biziquinho (Queimada dos Britos) e Rancho Carimbó (Betânia). No site do Parque Nacional, encontram-se os contatos desses e outros redários credenciados. Numa próxima oportunidade, se o roteiro escolhido fosse idêntico, provavelmente optaríamos pelos mesmos redários para o pernoite. Contudo, uma ressalva precisa ser feita sobre a Dona Dete. O fluxo de pessoas ali é muito intenso, e apesar da boa vontade dos funcionários, achamos que a estrutura não é grande o suficiente para atender com o mesmo conforto que tivemos nos outros locais. Outro ponto é que, durante o dia, tivemos música alta em alguns momentos. Outros amigos já haviam feito alertas similares. Na verdade, só ficamos na Dona Dete porque queríamos parar no redário mais perto o possível, já que estaríamos vindo andando desde o Canto de Atins. Num roteiro diferente, teríamos optado pela Dona Loza.
Sobre o clima
O Lençóis ficam a apenas 2 graus ao sul da linha do Equador! Estando na região tropical do planeta, possuem uma amplitude térmica muito controlada. Durante toda nossa estadia, as temperaturas que nós aferimos variaram entre 28°C e 32°C, com exceção de um único registro de 26°C no Canto de Atins. Os horários mais quentes e desconfortáveis eram entre as 12h e 15h. Nesse período, estávamos nos oásis, onde o vento não é tão intenso quanto nas dunas, e a umidade é mais alta. Durante esse período, até ficar parado era ruim. O único ponto positivo é que qualquer peça de roupa que precisasse ser lavada, secava rapidamente.
Os ventos são o grande motor construtor dos Lençóis, e também são o elemento fundamental para viabilizar a travessia nos moldes em que é realizada. Apesar da elevada temperatura ambiente, o vento fresco e constante que sopra nas dunas impede que o sol superaqueça as areias e mantém a sensação térmica reduzida. Além disso, sopram para o oeste, facilitando o deslocamento no sentido Atins → Santo Amaro, e tornando bastante desaconselhável sua realização no sentido oposto. Uma orientação que li e ouvi algumas vezes, é programar as caminhadas para se encerrarem no máximo às 11h, evitando a parte mais quente do dia. Seguímo-la e recomendo.
Sobre a orientação
Ao preparar o material de apoio para orientação nas caminhadas, costumo analisar diversos tracklogs e gerar um tracklog unificado, com a minha aposta de melhor caminho a seguir. Para a travessia dos Lençóis, usei uma estratégia diferente. Devido a natureza dinâmica das dunas, e a liberdade de movimentação que elas oferecem, não existe um caminho definitivo. Para essa travessia, preferi levar três versões diferentes de tracklog, gravados ou usados anteriormente por pessoas conhecidas. Os três fizeram opções de percurso diferentes. Ao comparar o tracklog que gravamos durante nossa experiência com essas gravações de referência, notamos que realizamos um quarto percurso. Claro que existem muitos trechos bastante similares, mas existem muitos outros divergentes.
As diferenças ocorrem primeiramente porque as dunas e lagoas mudam de forma, tamanho e posição, naturalmente, com o tempo. Depois, as lagoas se enchem e esvaziam ao longo da temporada, favorecendo ou dificultando a sua travessia. Mas existe um outro fator importante que dá um sabor especial a experiência nos Lençóis: Cada visitante tem um grau de liberdade muito maior do que em outros terrenos para moldar sua visitação. Dependendo do tempo que se pretende gastar em cada trecho, dependendo do apetite por banhos nas lagoas ou visuais panorâmicos, da disposição para circundar uma grande lagoa ou atravessá-la por dentro d'água, um rota diferente pode ser escolhida. E muitas escolhas acabam acontecendo em campo, ao se deparar com o aspecto do terreno e avaliar a progressão do grupo.
Como de costume, preparei para essa incursão também uma carta topográfica, que disponibilizo aqui. No retorno da viagem, atualizei o traçado representado no mapa para coincidir com aquele que realizamos em nossa viagem. Conforme explicado acima, é importante ter em mente que esse traçado é apenas um retrato do que foi executado, e não constitui uma recomendação de caminho a ser percorrido. Com a mesma ressalva, disponibilizo aqui também, o tracklog que gravamos.
Apesar do site do Parque informar que existe uma sinalização em implantação, não notamos nada semelhante, além de uma única placa, ainda em Atins. Importante ressaltar que uma característica daquele terreno é a ausência de marcos de referência por longas extensões. É fundamental estar sempre atento a direção de navegação desejada e ir ajustando a rota para vencer/visitar as dunas e lagoas que vão se apresentando. Outro ponto a ser mencionado é o avistamento dos oásis. Quando eles surgem no horizonte, automaticamente passam a ser um importante referencial. Porém, é preciso ter em mente que eles são muito extensos, e que simplesmente seguir na sua direção, pode levar o caminhante a interceptá-lo em um ponto bem distante do acesso habitual aos redários.
Sobre calçados
Foto: Letícia Vimeney
Minha opção para a travessia foram as sandálias fixas no calcanhar ("papete"), com meias. Como qualquer calçado, as sandálias amortecem as pisadas e evitam a abrasão da areia diretamente nos pés. Por serem abertas, permitem o escoamento fácil de água e da areia. Também como em qualquer calçado, as meias entram para proteger os pés da fricção direta com a sandália. Nesse caso particular, protegem da fricção com o resto de areia que sempre ficará sendo carregado na sandália. Além disso, as meias protegem do sol. Esse sistema funcionou muito bem comigo, foi adotado pela maioria do meu grupo, e certamente eu o repetiria numa próxima oportunidade.
As duas desvantagens dele são: Após entrar na água, as meias se transformam num "bife à milanesa" de areia, e acabam causando aquela fricção da areia contra os pés, que se pretendia evitar. Para contornar o problema, passei a retirar as meias antes de entrar na água. A outra questão, é que, ao se descer pelas encostas íngremes das dunas, os pés (com calçados ou não) afundam bastante na areia fofa, e se faz alguma pressão para removê-lo da areia. Para evitar arrebentar as tiras da sandália, passei a tirá-las preventivamente antes das descidas.
Outras opções frequentemente mencionadas são os pés descalços ou o uso apenas de meias. Essas podem ser escolhas razoáveis, a depender do condicionamento dos pés do caminhante a esse tipo de estresse. Não sou um simpatizante dessa opção pois, como dizem, os pés são órgãos vitais do caminhante. Qualquer acidente, poderia comprometer a experiência. Agora, para quem faz esse tipo de opção, é fundamental ter em mente que, na chegada aos oásis, as areias ficam realmente muito quentes. Então será importante contar, de qualquer forma, com algum calçado. Outro ponto é que a caminhada do Atins até a Duna da Bandeirinha é feita em terreno muito mais irregular e sujeito a detritos (pedrinhas ou cacos de vidro, por exemplo) do que dentro das dunas. Uma alternativa que fiquei particularmente curioso são as sapatilhas náuticas. Porém, nem todo modelo parece apropriado. A minha, por exemplo, possui uma tela que provavelmente permitiria muita passagem de areia. Os modelos de neoprene devem ser interessantes.
Sobre o Parque
Com a explosão de visitação que vem ocorrendo nos últimos anos, a gestão do Parque Nacional tem dado sinais de que vai começar a controlar mais de perto o uso da Unidade. Levamos um pequeno susto durante o planejamento da viagem, quando, já relativamente próximo da data de partida, descobrimos que o Parque estava exigindo o agendamento prévio de pernoites, porte do comprovante de agendamento, e preenchimento de um registro de entrada na trilha, dentre outros itens. Na prática, acabamos descobrindo que, além de não existir uma fiscalização dessas exigências, a sua própria operacionalização parece ainda precisar de amadurecimento.
Ainda não existia um canal centralizado para a realização de agendamentos. Conforme mencionei, a reserva nos redários foi feita pelo Whatsapp dos moradores, sem nenhum protocolo especial. Naturalmente, nenhum deles forneceu qualquer tipo de comprovante do agendamento, fora o registro da própria conversa realizada via Whatsapp. Sobre o preenchimento do registro de entrada na trilha, consegui realizá-lo através de um formulário online. Porém, ao final do preenchimento, o sistema me pediu para fazer login com uma conta Microsoft que eu não disponho, para ter acesso a uma cópia das respostas. Com isso, fiquei sem nenhum tipo de comprovação de que eu cumpri com essa obrigação.
Ressalto aqui, que essas críticas, ou constatações, não devem ser vistas de forma alguma como um incentivo ao descumprimento das normas que estão sendo estabelecidas pela gestão. Na verdade, acho importantíssimo que exista um regramento eficiente para proteger nosso patrimônio natural. Meu intuito é, na verdade, alertar os próximos visitantes de que as coisas estão mudando. É importante ficar atento aos ofícios que certamente serão publicados com orientações para as próximas temporadas. Seguem algumas referências:
- Site oficial do Parque Nacional dentro do portal do ICMBio
- Página com orientações específicas para a realização da travessia, incluindo o acesso ao formulário de registro do visitante
- Ofício com regras estabelecidas para a temporada de 2026
- Um manual para condutores de visitantes contendo um dos descritivos mais interessantes que vi sobre a ecologia, geologia e outros aspectos do Parque
Sobre a visitação sem guia: Ouvi relatos de amigos que sofreram discriminação no passado, por estarem realizando o roteiro de forma autônoma. A possibilidade desse tipo de conflito é algo que sempre me incomoda durante os planejamentos de minhas viagens. Registro aqui que, ao menos para a temporada de 2026, não havia por parte do Parque obrigatoriedade de contratação de qualquer tipo de guia/condutor para realização da travessia. Além disso, felizmente, durante nossa visita, não sofremos nenhum tipo de discriminação ou mau trato por parte das equipes dos redários, ou dos guias locais com quem tivemos contato. Quero crer que a opção por realizar a travessia de forma autônoma continuará a ser respeitada pela gestão do Parque, e que os locais estão compreendendo que a diversidade de públicos na região é algo que só tem a somar.
Dados da viagem
| Data | Detalhe | Distância | Tempo | Alt.(min - max) | G.E.A | P.E.A |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 16/08 | Atins x Canto de Atins | 6,75 Km | 1:49 | -1 m - 10 m | 89 m | 89 m |
| 17/08 | Canto de Atins x Baixa Grande | 24,78 Km | 7:41 | -8 m - 22 m | 959 m | 952 m |
| 18/08 | Baixa Grande x Queimada dos Britos | 12,22 Km | 5:48 | -14 m - 22 m | 457 m | 455 m |
| 19/08 | Queimada dos Britos x Betânia | 16,45 Km | 6:27 | -10 m - 42 m | 890 m | 891 m |
| 20/08 | Betânia x Santo Amaro | 14,76 Km | 4:23 | 1 m - 13 m | 212 m | 216 m |
| TOTAL (com remada) | 74,98 Km | 26:08 | -14 m - 42 m | 2607 m | 2603 m | |
| TOTAL (sem remada) | 60,21 Km | 21:45 | -14 m - 42 m | 2395 m | 2387 m |
Publicado em: 04/10/2026